
Tenho entre mãos um disco etiquetado com neo-classical mas eu acho que uma palavra vale mais que essa descrição. Eu não sei que porra é música neo-clássica. Talvez isto seja música neo-neo-clássica ou pós-neo-clássica. A primeira música parece-me minimalista; uma peça tocada com muita calma, bem composta. Vejamos, de clássico o que sobra? Os instrumentos, todos acústicos: violinos, violoncelos, clarinetes, trompete, piano, xilofone, por aí adiante e por vezes alguma percussão (bateria); há algumas partes com dedilhados de guitarra clássica. Isto chega para ser clássica, pós-clássica, mega-clássica, para-clássica? É evidente que não. Daí que uma palavra defina a maioria do álbum, em que a percussão se encontra ausente ou pouco activa: delicado. Ah, mas quando há percussão é outra coisa, há alguns crescendos nada abusados e a coisa vai andando, subindo, enchendo, sem nunca se exaltar demasiado; depois arrefece num piano melancólico. Já foi boa a viagem e ainda vamos na segunda faixa. A terceira faixa é piano a solo, uma peça óptima para - não desfazendo - usar em vídeos kitsch no movie maker e acabar de vê-lo com uma lágrima no canto do olho. A quarta música, Thread Still, que na sua duração de 10 minutos, representa, digamos, a média do álbum. Começa com um piano e um violino que podiam ter saído de um álbum de Godspeed You! Black Emperor - será que eles são neo-clássicos? - e quando chego ao final parece-me que vai chover e o sol não volta. Nunca mais. Venha o Inverno. Sigo para a faixa 5 depois de enxugar as lágrimas e uma guitarra acústica a solo chora-se solidariamente, criando um momento para o disco respirar.
Escolha com cuidado a hora em que vai dar ouvidos a esta música, no seu mp3; não pode haver ruído de fundo: o trânsito ou uma gunete no metro a tagarelar sobre a tatuagem de homenagem ao Cristiano Ronaldo que pretende fazer no fundo das costas, são obscenidades que ferem de morte música desta profundidade.
A faixa 6, Three Winters Our Trace, utiliza, uma pequena dose bem-vinda de electrónica na sua abertura. É a faixa que mais prima pela simplicidade, e me faz perceber que a grande maioria do disco - à excepção de alguns momentos de piano ou guitarra virtuosa - parece liberto de preconceitos de composição, ou a velocidade a que tudo se passa assim faz parecer: praticamente tudo aqui é notas simples, espaçadas e a música um agregado de sons que se comporta como um ser que vai mudando a sua forma sem nunca o fazer bruscamente; embora, claro, mais vivo que um cadáver chamado Music for Airports. A faixa 7 tem mais vida e permite ao sol entrar pela janela, antes da sua sucessora Lullaby For Rainsongs nos arrebatar (como aliás o título já deixava adivinhar) com as suas flautas e a guitarra acústica a chorar-se outra vez sozinha. Existe, contudo, uma réstia de esperança: a lista ainda contém uma hidden track. Trata-se de umas variações sobre o tema 4 (que termina com a mesma guitarra a fazer o choradinho), e permite ao disco terminar acenando-nos, da estação, com um lenço branco enquanto o combóio em que embarcámos vai partindo. Vamos mais leves, felizes porque o sol já brilha, mas tristes por partir sem Yashushi Yoshida.
No final de contas, abstenho-me de ir perguntar aos cientistas musicais da All Music, ou na democrática Wikipédia o que é música neo-clássica.
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